O EVANGELHO DE CRISTO LIBERTA DA ESCRAVIDÃO HUMANA E RELIGIOSA

Por Daniel Santos 


Todas as vezes que recorremos à história do nosso povo, vemos o quanto Deus nos moldou. Abster-se do conhecimento e da análise crítica das posturas dos nossos pais, dificilmente seremos bons filhos e consequentemente, pais exemplares. Afinal, a bíblia é a favor ou contra o escravagismo? 

Ferreira (2013, p. 570) afirma que: 

a Guerra de Secessão, como ficou conhecida a guerra civil americana, ocorreu de 1861 a 1865 e dividiu os estados da União entre estados do sul rural e estados do norte urbano. O Sul tinha uma economia baseada no latifúndio escravista e na produção de tabaco, algodão e cana-de-açúcar, voltada para a exportação; e o Norte possuía uma economia industrializada e defendia a abolição da escravidão. 

Segundo Siegfried (1951), a base religiosa dos americanos descendeu, praticamente, de povoados calvinistas (XVlll), sustentada por três importantes pilares: o puritanismo, o iluminismo e o metodismo. 

E como em toda civilização, as teses majoritárias sofrem as amálgamas conceituais e os filtros sociais, a guerra de secessão americana (1855) emerge dentre diversas tônicas: o bibliocentrismo da fé, defendido por Timothy Dwight (1752-1817); os gritos de independência, soados por Samuel Cooper (1780); os textos patrióticos, como o artigo do jornal de Boston (1777) e a pregação análoga (1783) que comparava George Washington como uma espécie de Josué americano, pregada por Ezra Stiles. Para Samuel B. How (1790-1868), em sua carta ao sínodo da igreja reformada da Holanda, os irmãos deveriam aceitar os crentes detentores de escravos. Segundo ele, as escrituras assim os permitiam. Todavia, para o presbiteriano Elijah Lovejoy (1802-1837), escravizar é um equívoco, é imoral e sobretudo, injusto diante de Deus (GAUSTAD, 1968 apud AZEVEDO,1996, p.57).

Paulo escreve aos crentes de Colosso, e ensina aos escravos que 

[...] obedeçam em tudo a seus senhores terrenos, não somente para agradar os homens quando eles estão observando, mas com sinceridade de coração, pelo fato de vocês temerem ao Senhor. Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo. Quem cometer injustiça receberá de volta injustiça, e não haverá exceção para ninguém (BÍBLIA, Cl. 3.22-25) 

Conhecedor da constituição greco-romana, Paulo não ousaria tocar em algo tão óbvio e natural, para o homem de sua época. Paulo estava trabalhando em um terreno, onde os princípios do Eterno seriam gradativamente implantados; e não eram por rebeliões e revoltas que as prédicas do evangelho libertador seriam aderidas.  

O cerne da vida espiritual do crente, sendo ele escravo ou senhor, foi bem definido na primeira carta do apóstolo Paulo aos crentes de Corinto “[...] aquele que, sendo escravo, foi chamado pelo Senhor, é liberto e pertence ao Senhor; semelhantemente, aquele que era livre quando foi chamado, é escravo de Cristo”. (1Cor 7.22, NVI). 

Ele cria que essa questão, a própria comunidade iria saber o que fazer, melhor dizendo, a comunhão e o amor puro de Jesus no meio deles tornaria as condições de senhor e de escravo algo irrelevante. O Espírito voluntário que constitui o evangelho é capaz de guindar os servos à altura de senhores e nivelar os senhores à altura dos servos, melhor dizendo, essa diferença é quase que imperceptível; quem tem recursos sirva com o que dispõe e quem não possui bens, sirva com o trabalho. Tudo para a glória de Deus.

Acerca disto, diz Lopes (2008, p. 209): 

Embora Paulo não tenha combatido o regime de escravatura institucional do Império Romano, e isso para não impedir o avanço do evangelho, o germe da liberdade contido no evangelho haveria de aniquilar a instituição da escravatura e estimular a conquista de todas as liberdades. 

Quando nos reportamos ao período veterotestamentário, vemos a instituição de Israel trazendo outra perspectiva: “se alguém do seu povo empobrecer e se vender a algum de vocês, não o façam trabalhar como escravo” (Lv 25.39, NVI). 

Isso nos indica que por mais que Deus respeite o contexto humano, escravizar nunca esteve nos planos de Deus. Até com os escravos fugitivos, Deus demonstrou bondade e misericórdia. O Senhor permitiu a cultura escravagista, mas deixou registrado as marcas do seu repúdio na vida dos escravos fujões: “Não entregarás a seu senhor o servo que, tendo fugido dele, se acolher a ti”. (Dt. 23.15, NVI). 

Ainda no Velho Testamento, o grego Lucas registra em seu evangelho um texto de Isaias (61.1), lido por Jesus na sinagoga, que diz “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos” (Lc 4.18, NVI). 

Mediante o exposto, cabe à igreja não desprezar em sua devoção o elemento primordial para a sua fé, o bom senso. Desde o seu nascimento, o povo do Senhor teve que lidar com todos os tipos de tensões; e mesmo assim Deus o cercou de sabedoria. Aprendemos que quando se investe no indivíduo, o indivíduo transformado é sinônimo de práticas louváveis e transformadoras. 

REFERÊNCIAS: 

FERREIRA, Franklin. A igreja cristã na história: Das Origens aos Dias Atuais.  São Paulo: Vida Nova: 2013, p. 570. 

SIEGFRIED, André. Forças religiosas e vida política; Catolicismo e Protestantismo. Paris: Armand Colin, 1951, p. 198. 

AZEVEDO, Israel Belo. A Celebração do Indivíduo: A Formação do Pensamento Batista Brasileiro. Rio de Janeiro: Faberj, 1996. E-book, p. 57. Disponível em: http://www.faberj.edu.br/cfb-2015/biblioteca.php. Acesso em: 10 set. 2021. 

LOPES, Hernandes Dias. Colossenses – Comentários Expositivos Hagnos: A Suprema Grandeza de Cristo, O Cabeça da Igreja. Rio de Janeiro: Hagnos, 2008, p. 209. 

Bíblia Nova versão Internacional. Disponível em:< https://www.bible.com/pt/bible/129/1CO.7.NVI>. Acesso em 15 de setembro de 2021.

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