A ÁRVORE NO MEIO DO JARDIM

Por Daniel Santos



 "Mas, do fruto da árvore que está no meio (בְּת֣וֹךְ) do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais" - (Gn 3.3) 

Os que se deleitam nas sagradas escrituras sabem que a narrativa bíblica é lacônica (contém lacunas), isto é, os narradores foram econômicos ao tecer os textos, portanto, todos os detalhes contidos na bíblia são extremamente importantes. E se a posição dessa árvore (no meio do jardim) foi registrada, é porque tem relevância.

O texto relata que Deus criou, primeiramente, as condições para que depois a sua criatura as vivesse de modo perfeito. No terceiro verso temos, no seu início, uma conjunção adversativa (mas), isto quer dizer que a informação que a sucede será um contraponto ao que foi dito antes. Após essa conjunção, O Criador insere uma exceção: dentre todas as possibilidades, a central será negada.

Naturalmente as demais árvores tornaram-se componentes de um grupo irrisório e a misteriosa árvore, entretanto, passou a ser cultuada. Será que as outras não eram tão atrativas assim, ou a proibição da árvore a teria deixado mais interessante?

Muitas questões vieram à tona com relação a essa atitude de Deus. Se o fruto da árvore trazia morte, porque Deus a criou, e se era necessária para uma outra oportunidade, porque não a fez nascer em um lugar isolado, e se estivesse em lugar isolado, o homem, ainda, não se interessaria?

Muitos teólogos se arriscaram a responder essas questões; talvez um ou outro tenha se aproximado do real propósito (os fideístas, obviamente não se candidatariam a este labor). Outro ponto importante que poderíamos perguntar a Moisés, é com relação a essa tradição iniciática, sendo ele, um profeta nascido no Egito e conhecedor do deus Sol - Rá, oriundo da Flor de Lótus (segundo os clássicos, o homem e a mulher surgiram das lágrimas de Rá).

Todavia deixemos essas questões para outra ocasião. O importante para essa consideração é que a árvore podia estar no centro do jardim, porém isso não quer dizer que ela devesse estar no centro do coração do homem. Hoje, todos os dias surgem diversos atrativos com o status de centrais, impostos pela sociedade. A elite levanta, por meio das mídias sociais, um ídolo, o ídolo propaga as marcas, a massa consome as marcas, o ídolo volta para a massa (perde a fama) e a elite amplia o seu poder financeiro. Os jardins variam, temos: o mercadológico, o cultural, o moral, o intelectual, o religioso entre outros. Sempre que quisermos, haverá uma árvore dessa para nutrir esse deus consumidor que há dentro de nós.  

A centralidade da árvore da vida (Gn 2.9) e os demais frutos em torno do Éden não bastaram; o homem desejou ultrapassar os limites, desconsiderando a limitação que ocorreria entre a relação dele com Deus.

Considerando os aspectos apresentados, eu peço ao Todo Poderoso que possamos desviar os nossos olhares das centralidades desta terra. O problema não estava no fruto da ciência do bem e do mal, mas ter como prioridade a ambição pela divinização humana e o prazer pela desobediência. Que Deus nos guarde de tais ênfases.

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