UM PONTO NO ORIENTE PRÓXIMO

Por Professor Me. Saulo Henrique Justiniano Silva Unicesumar / Pós Graduação.



E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção (Gênesis 12:2)


Quando tratamos de história recente do Oriente Médio, invariavelmente, conceitos como terrorismo ou conflitos religiosos saltam aos olhos. Quando se trata dos embates entre Israel e Palestina, a questão não é diferente. Semanalmente noticiários, virais, opiniões em redes sociais, mostram, a partir de um lado, acontecimentos envolvendo conflitos na região. Infelizmente o imediatismo das informações impede as análises profundas dos fatos, ou impulsionam opiniões pouco fundamentadas dos verdadeiros motivos. 


Quando trata-se de Israel, nos meios religiosos sempre surgem explicações espirituais sobre a legitimidade do povo que ocupa a região. Os judeus remontam a narrativa bíblica do bereshit, primeiro livro da Torá, em que Abraão assumiu Canaã por desígnios de Deus. Já os árabes asseguram a sacralidade da Terra, pela conquista empreendida pelos muçulmanos no século VII e pelo episódio conhecido no Al Corão como Viagem Noturna, na qual Muhammad (Maomé) teria, com seu cavalo, ascendido aos céus. Para os islâmicos, a ascensão aconteceu a partir do Domo da Rocha em Jerusalém, que, segundo a tradição judaica, teria sido o lugar onde Abraão quase sacrificou Isaac e também o Santo dos Santos do Templo de Salomão. 


Do ponto de vista religioso, os cristãos também têm a Terra de Israel e, principalmente, Jerusalém como sagrada, afinal foi ali que se deu o ministério de Jesus. Durante quase 200 anos, entre os anos de 1096 a 1272, movimentos chamados de Cruzadas, organizadas pelos Papas tiveram como objetivo apossar a Terra Santa, que na época estava sob domínio muçulmano, para a cristandade. O saldo das cruzadas não foi positivo para os cristãos, que venceram apenas uma dentre as nove expedições militares oficiais. Desde então, a Terra Santa, poucas vezes foi objeto de interesse direto cristão. Apesar de não negar sua importância histórica e espiritual, os cristãos aguardam a segunda volta de Cristo e elevação dos salvos à outra Jerusalém, a celestial. 


A narrativa bíblica se passa, em sua maior parte, na região que hoje chamamos de Palestina – este nome deriva do latim Terra dos Filisteus e remonta à época da dominação romana sobre a região. Lá se fixou Abraão, Isaac, Jacó (também chamado Israel) e seus filhos (que deram origem às tribos) antes de irem para o Egito, onde, segundo a narrativa bíblica, foram escravos. Retornaram de lá, após cerca de 400 anos com a libertação liderada por Moisés. 


As tribos de Israel se fixaram na região, após empreender diversas batalhas contra os povos que habitavam a localização. As batalhas foram constantes ao longo de toda narrativa veterotestamentária. Filisteus, Jebuseus, Midiãnitas, Cananeus, Assírios e Babilônicos dividiram a região com o povo da Bíblia, por isso assegurar que a Palestina sempre foi dominada pelos hebreus é um tanto quanto perigoso. O que diferenciou o domínio hebreu de outros povos? O forte componente religioso implícito na dominação da terra. Não há possibilidade de pensar história hebraica sem considerar questões como terra, templo e lei. 


A presença hebraica na região foi por algumas vezes interrompida no tempo do exílio egípcio, durante a dominação assíria, durante o cativeiro babilônico e, principalmente, seguramente o maior hiato, após a expulsão empreendida pelos romanos no ano 70. 

Durante a diáspora, período em que os hebreus (na realidade os judeus e os benjamitas, visto que os israelitas do Norte desapareceram durante a dominação assíria) se dispersaram pelo mundo, surgiram duas grandes vertentes judaicas, os askhenazitas, que fixaram na Europa Central e os sefaraditas, situados no norte da África e Península Ibérica. Além dessas regiões, outros grupos judaicos se estabeleceram em outras regiões do mundo, como os falashas, judeus africanos, ou mesmo na Península Arábica. 


Os judeus obtiveram direito de retornar à Terra Santa em 1947, com a fundação do Estado de Israel pela Organização das Nações Unidas (ONU). O nascimento de um país eminentemente judaico foi a forma encontrada de suprimir as perseguições antissemitas que se avolumavam na Europa desde tempos imemoriais e que alcançou seu auge com a política nazista, vitimando cerca de 6 milhões de israelitas na Europa central e no leste europeu. 


Antes da fundação do Estado e ao longo de quase 1900 anos em que estiveram dispersos, alguns judeus retornaram à Terra Santa, no entanto, outros - a maioria - não eram encorajados à tal empreitada, pois já estavam acostumados à vida no exílio. Muitos acreditavam que a volta à Terra era uma tarefa que seria empreendida nos dias do Messias, que viria e salvaria o povo de Deus, reconstruiria o Templo Sagrado e restauraria a dinastia davídica.


Neste ínterim, principalmente no século VII, os árabes muçulmanos ocuparam a Palestina e fizeram de Jerusalém a terceira cidade mais importante do Islã. Sucessivos califados, unidades de liderança política se estabeleceram na região. Desde o califado Rashidun até o Otomano, que chegou ao fim em 1920, a população na palestina era majoritariamente muçulmana. Mesmo entre 1920 e 1948, durante o Mandato Britânico da Palestina, a população era árabe. 


Em 1947 a ONU recomendou a implementação do plano de partilha da Palestina, que ocorreu em 14 de maio de 1948. A ação criou dois estados nacionais; Israel, ocupado por judeus, e o Palestino, por árabes, em sua grande maioria muçulmanos. O Estado de Israel ocupou 53% da região, com cerca de 700 mil habitantes, dos quais a maioria imigrava de países do leste europeu, e o Estado Palestino ocupou 47% da região, com mais de 1 milhão de habitantes. 

A população palestina não aceitou a partilha como foi proposta. Alguns pontos nos permitem compreender os motivos, como o fato de seus ancestrais habitarem a terra a mais de mil anos e de ter ficado com a parte menor e menos favorecida da região após 1948.


Desde então, vários conflitos envolvendo israelenses e palestinos ocorreram. Hoje, após vários conflitos, a Palestina tornou-se território integralmente judaico e os árabes que lá habitam devem respeito às leis e normas do Estado judeu. Longe de validar o terrorismo na região e a maneira como diversos grupos, tanto do lado palestino quanto judaico, agiram ao longo destes anos é importante esclarecer que não se trata de um conflito religioso, como muitos atribuem, mas de uma conjunção de fatores de ordem territorial. 

Pensamos que dificilmente a crise envolvendo israelenses e palestinos será resolvida sem que a questão da terra seja realmente levada em consideração, partilhando equanimemente a região.


Professor Me. Saulo Henrique Justiniano Silva

Unicesumar / Pós Graduação.

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